Nunca vivemos momento tão pedagógico.

‘Nunca vivemos um momento tão pedagógico’, diz Mario Sergio Cortella
Filósofo falou sobre o cenário político do país e a reforma do Ensino Médio.
Ele lança livro com Leandro Karnal e Pondé nesta segunda (3) em Campinas.

Filósofo falou da situação do país e disse que nunca vivemos momento tão pedagógico.

“Se eu te perguntar agora o nome de cinco jogadores da seleção de futebol brasileira, você dificilmente saberia. Se eu perguntar o nome de cinco ministros do Supremo Tribunal Federal, todo mundo vai lembrar. Isso é inédito. Há uma alteração do nosso foco de exclusividade do cotidiano”, afirmou o filósofo Mario Sergio Cortella sobre o cenário político brasileiro.

Em entrevista ao G1, o professor conta que, apesar da situação de tensão, o país nunca esteve em um momento tão pedágogico e ressalta a importância de discutir ideias. Além disso, Cortella revelou seu ritual particular: antes de entrar em um palco para palestrar, gosta de ouvir Lady Gaga.

Ao lado de Leandro Karnal e Luis Felipe Pondé, ele lançará o livro “Verdades e Mentiras – Ética e democracia no Brasil” com um bate-papo gratuito, que ocorre nesta segunda-feira (3/abr/17), em Campinas (SP).

Verdades e Mentiras
O livro foi escrito pelo filósofo, ao lado dos colegas Leandro Karnal e Luis Felipe Pondé. Sobre o projeto, Cortella explica que o objetivo dos três era de promover exatamente esse debate sobre a política no país e provocar nas pessoas a vontade de conflitar ideias.

“Queríamos colocar na mesa uma reflexão que trouxesse à tona a possibilidade de um diálogo, no qual a ideia de conflito pudesse emergir sem que o confronto viesse à tona, isto é, que houvesse uma reflexão de algo que é necessário no nosso entendimento dentro do país. Isso para que o conflito possa aparecer, que é o conflito entre as ideias e as posturas, mas sem o confronto, que é a tentativa de anular a outra pessoa”, explica.
Quem pensa numa única direção, normalmente pensa estreito”
Mario Sergio Cortella

Além disso, o professor contou que a oportunidade de escrever livros com outras pessoas é uma das coisas que mais gosta como escritor devido o crescimento que a experiência proporciona.

“Isso impede que eu fique com aquilo que eu já pensava, do mesmo modo e o tempo todo. Em vários momentos dentro do diálogo eu divergi dos outros autores e em outras eu revi a minha postura. Essa recuperação da capacidade de uma conversa que nos leve a fazer sempre melhor é extremamente prazerosa e importante pra gente não ficar com reducionismo mental. Quem pensa numa única direção, normalmente pensa estreito”, conta.

Inspirações
Quanto às inspirações, o professor afirma que a melhor maneira de estimular a criatividade está em observar o cotidiano e deixar que tanto ele quanto as pessoas nos mostrem lições valiosas.

“Cada um de nós vai nessa convivência com aquilo que é diverso aprendendo outras coisas. A vida é um mistério magnífico que sinto vibrar em mim e nas outros. Como ela é um mistério, não compreendo a totalidade de sua fonte, mas sei que desse mistério eu faço parte e não quero me afastar disso. Eu tiro ideias de outras pessoas que me inspiram a pensar, a partir de ideias que elas tiveram, e outras são elaborações minhas, do meu modo próprio de fazer as coisas”.

Brasil
“Nós estamos vivendo um momento febril e precisamos entender que a purificação de algo que é negativo vem com a febre. Por isso, eu estou vivendo uma alegria física muito grande, não pela encrenca, dificuldade, ruptura ou patifaria, mas porque tudo isso vem nos ensinando a construir um país que pode ser melhor se mostrarmos força”, comentou o professor a respeito do cenário político atual.

Cortella acredita que o momento vivido pelo Brasil, de manifestações e questionamentos acerca da realidade, é novidade para o país. Ele ressalta a precisiodade do ser humano saber questionar o que vive, pois sem isso, acredita que não haja evolução.
Nunca nós tivemos na nossa história um momento tão pedagógico como este que estamos vivendo”
Mario Sergio Cortella

“Nunca nós tivemos na nossa história um momento tão pedagógico como este que estamos vivendo. Claro que, por si só, não gerará um resultado positivo, mas é preciso que a gente tenha a esperança ativa”.

Sobre as redes sociais, Cortella acredita ser esta uma via de mão dupla, já que diz que tudo depende de quem está atrás da tela. Se por um lado as pessoas têm maior espaço para debater e conflitar de forma positiva, por outro, podem exceder a linha tênue que leva ao confronto.

“As plataformas digitais favorecem a intolerância pois oferecem a forma de anonimato de um lado e, por outro, a ausência de responsabilidade naquilo que se diz, porque qualquer coisa pode ser dita, inclusive ofender pessoas, ofender ideias. Portanto, ao invés da internet ser uma plataforma facilitadora do conflito criativo, ela muitas vezes faz emergir o ódio destrutivo, que é a base do confronto”.

A Filosofia
Há mais de 40 anos na área, Mario Sergio Cortella diz que a paixão pela Filosofia vem desde pequeno. Como bom questionador da vida, aos 14 anos pegou pela primeira vez nas mãos um livro do filósofo Descartes. Desde então, nunca mais saiu desse universo.

“Comecei a me encantar por uma área que tinha como grande marca a indagação, isto é, a capacidade de se perguntar sobre os ‘porquês’ das coisas, em vez de se contentar com os ‘como’. Não basta começar a delirar para já achar que está filosofando, porque Filosofia não é delírio. A Filosofia é um pensamento sobre as grandes questões da nossa vida. Ela não move moinhos, mas nos ajuda a entender o porquê devemos movê-los”, diz.
A Filosofia não move moinhos, mas nos ajuda a entender o porquê devemos movê-los”
Mario Sergio Cortella

Questionado acerca da nova proposta de reforma do Ensino Médio no Brasil, que sugere tirar matérias como Filosofia, Sociologia, Artes e Educação Física da grade escolar, Cortella diz, sem rodeios, que não há com o que se preocupar no momento.

“A maneira como o atual governo apresentou isso é inconveniente e amadora. É surpreendente que o MEC tenha admitido a colocação de uma coisa tão séria de um modo tão irresponsável e leviano (…) É claro que temos que mexer na organização do Ensino Médio, mas colocar isso como medida provisória é uma irresponsabilidade que desvia o foco. Essa proposta nada apresenta no momento senão uma polêmica. Na educação, o que a gente menos precisa é polêmica. Não dá para deixar a educação, algo que é sério, nas mãos de quem é amador”, desabafa.

Lady Gaga
Antes de entrar nos palcos para palestrar, o professor revelou que possui um ritual particular. Segundo Cortella, ouvir músicas, principalmente da artista Lady Gaga, é o que auxilia na hora de reunir todas as energias para passar para o público boas reflexões.

“Gosto de colocar o meu fone de ouvido, que carrego comigo no bolso do meu paletó, e ouvir música. Normalmente, ouço pop/rock. Como tem uma batida muito forte, mexe comigo e eu entro mais animado. Lady Gaga é suficiente para me mover”, revela.

Lançamento
“Quero uma reflexão que ajude as pessoas a pensaram um pouco mais a respeito daquilo que fazem. Nós não queremos, de modo algum, dizer para as pessoas ‘pensem isso’, mas queremos dizer ‘pensem nisso’, isto é, fazer algo que sirva para que as pessoas sejam elas mesmas donas da própria reflexão. Não é algo que deve induzir, mas que favoreça o pensamento próprio”, conclui.

FONTE: G1.com.br

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